De repente do riso fez-se o
pranto
Silencioso e branco como a
bruma
E das bocas unidas fez-se a
espuma
E das mãos espalmadas fez-se o
espanto.
De repente da calma fez-se o
vento
Que dos olhos desfez a última
chama
E da paixão fez-se o
pressentimento
E do momento imóvel fez-se o
drama.
De repente, não mais que de
repente
Fez-se de triste o que se fez
amante
E de sozinho o que se fez
contente.
Fez-se do amigo próximo o
distante
Fez-se da vida uma aventura
errante
De repente, não mais que de
repente.
Soneto a Quatro Mãos (Paulo
Mendes Campos/
Vinicius de Morais)
Tudo de amor que existe em mim
foi dado.
Tudo que fala em mim de amor
foi dito.
Do nada em mim o amor fez o
infinito
Que por muito tornou-me
escravizado.
Tão pródigo de amor fiquei
coitado
Tão fácil para amar fiquei
proscrito.
Cada voto que fiz ergueu-se em
grito
Contra o meu próprio dar
demasiado.
Tenho dado de amor mais que
coubesse
Nesse meu pobre coração humano
Desse eterno amor meu antes
não desse.
Pois se por tanto dar me fiz
engano
Melhor fora que desse e
recebesse
Para viver da vida o amor sem
dano.
A Rosa de Hiroshima
(Vinícius de Morais)
Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada